Sexta Santa na Bahia: tradição, fé e o pedido de bênção – por Felipe Fonseca
Em diversos cantos da Bahia, a Sexta-feira Santa vai muito além de uma data do calendário religioso. É um momento de profunda conexão espiritual, marcado por tradições centenárias, manifestações culturais e um forte sentimento coletivo de fé. Do interior à capital, Salvador, o dia é vivido com profundo respeito, silêncio e devoção.
Conforme o calendário litúrgico da Igreja Católica, a data representa um dos ápices da Semana Santa e rememora a crucificação de Jesus Cristo. Na mística baiana, no entanto, essa memória ganha contornos próprios, moldados pela religiosidade popular e pelo sincretismo que define a identidade cultural do estado.
Logo ao amanhecer, muitas famílias mantêm o costume de não consumir carne vermelha, substituindo por peixes e outros alimentos. Embora a tradição litúrgica reserve o banquete para o Domingo da Ressurreição, em diversos lares é comum que a mesa da Sexta-feira da Paixão seja farta, reunindo pratos típicos como caruru, vatapá e outras iguarias da culinária local. Ainda assim, o clima predominante é de recolhimento: evita-se música alta e atividades festivas, em sinal de luto e reflexão.
As Paróquias se tornam o centro das celebrações, com destaque para a Procissão do Senhor Morto, uma das manifestações mais simbólicas do período. Nas casas, portas e janelas muitas vezes recebem os tecidos roxos, enquanto velas acesas reforçam o ambiente de fé, oração e introspecção.
Mas a Sexta Santa baiana também guarda um aspecto íntimo, singular e profundamente simbólico: o pedido de bênção. Em algumas regiões, é tradição iniciar o dia pedindo a bênção aos mais velhos, pais, avós, padrinhos, madrinhas, em um gesto de respeito e reverência que atravessa gerações. Em alguns casos, esse momento é acompanhado por um pequeno agrado, como moedas ou doces, transformando o ritual em uma expressão de afeto e partilha.
As encenações da Paixão de Cristo também emocionam comunidades inteiras, reunindo as pessoas em torno de uma prática que mistura teatro, fé e identidade cultural, mantendo viva e renovando essa herança que resiste ao tempo.
Para alguns, especialmente aqueles de raízes afro-brasileiras, toda sexta-feira é sagrada, afinal, é dia de reverenciar Pai Oxalá. No entanto, a Sexta-feira da Paixão carrega uma mística particular, resultado da intersecção entre as diferentes matrizes e experiências de fé que convivem e se entrelaçam no cotidiano do povo baiano.
É um dia para desacelerar e acolher esse convite à introspecção, ao respeito e à preparação para a renovação que chega com a Ressurreição da Páscoa. Seja em procissão, na prece e oração, ou nas memórias afetivas que iluminam as casas, ruas e memórias, que nossa fé e raízes culturais e religiosas se mantenham e perpetuem sempre vivas e pulsante.
Bença, pai. Bença, mãe. Bença, vó, vô. A bênção a todos?!

*Felipe Fonseca é comunicador baiano, jornalista e escritor, Especialista em Comunicação Não-Violenta (CNV). Autor do livro Bença, Vó, atua e pesquisa cultura popular e religiosidade
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