×

Prêmio Dandaras de Abrantes celebra o legado de mulheres negras da orla de Camaçari

Prêmio Dandaras de Abrantes celebra o legado de mulheres negras da orla de Camaçari

A força, a resistência e o legado de mulheres negras que ajudaram a construir a história da orla de Camaçari foram celebrados na primeira edição do Prêmio Dandaras de Abrantes, realizada na noite da última sexta-feira (31), no Teatro Tupinambás, no Colégio Estadual de Tempo Integral de Vila de Abrantes (CETIVA). O evento reuniu moradores, lideranças comunitárias, familiares e representantes do poder público em uma cerimônia marcada pela emoção e pelo reconhecimento de trajetórias que transformaram a comunidade.

Promovida pelo Centro Cultural de Vila de Abrantes, equipamento vinculado à Secretaria da Cultura de Camaçari (Secult), a iniciativa integrou a programação do Julho das Pretas e teve como objetivo valorizar mulheres negras que, por meio de suas histórias de vida, fortaleceram a identidade, a memória e o desenvolvimento social e cultural do território.

Idealizadora da premiação ao lado de lideranças comunitárias, a gerente do CETIVA, Carol Aragão, destacou a importância de reconhecer quem construiu a história da região.

“Estamos aqui nesta noite com o coração transbordando e cheios de orgulho, em um momento tão significativo. A orla merecia esse protagonismo”, afirmou.

Ao todo, foram homenageadas 22 mulheres, entre personalidades em vida e homenagens póstumas. Professoras, lavadeiras, sambadeiras, baianas de acarajé, lideranças comunitárias e outras referências da cultura popular receberam a honraria por suas contribuições à preservação das tradições e ao fortalecimento das comunidades da orla, de Arembepe a Catu de Abrantes.

A secretária da Cultura de Camaçari, Elci Freitas, ressaltou o papel da cultura na construção da identidade coletiva e na valorização das trajetórias femininas negras.

“Hoje é dia de celebrar a história, reconhecer trajetórias e reafirmar a relevância da presença e da contribuição das mulheres negras na construção da nossa sociedade. A cultura é feita de memória, resistência e de pessoas que dedicam suas vidas para fortalecer as comunidades”, destacou.

Entre as homenageadas, a professora Hilda Costa emocionou o público ao receber o prêmio acompanhada do filho, Acivaldo Costa, e da neta, Isabelly Costa.

“Sou de Jauá e moro há 50 anos em Vila de Abrantes. Toda a minha vida foi dedicada à educação e aos projetos sociais. Estou muito feliz e orgulhosa por receber esse prêmio e parabenizo a Prefeitura por essa iniciativa”, afirmou.

A professora, escritora e ativista Asenete Franco também celebrou o reconhecimento em sua terra natal.

“Sou filha de Abrantes, assim como meus pais. Ser reconhecida na minha cidade é motivo de muita gratidão. Esses são os frutos da minha trajetória como educadora, militante antirracista, ativista dos direitos humanos e candomblecista. Se estou aqui hoje, é graças ao meu alicerce ancestral”, declarou.

Momentos de emoção marcaram ainda as homenagens póstumas. Aris Batista recebeu o prêmio em nome da mãe, Cizina Batista, conhecida como Doradinha, falecida há 14 anos e reconhecida pela dedicação ao trabalho como lavadeira e pela criação dos nove filhos.

“Minha mãe criou nove filhos sozinha, lavando roupa de ganho. Toda a comunidade conhecia sua luta. Eu também sou lavadeira e agradeço por ela ter me ensinado essa profissão. Gostaria muito que ela estivesse aqui, mas sei que, de onde estiver, está vendo esse reconhecimento”, disse.

A cerimônia foi aberta com uma apresentação das alunas do curso de balé do CETIVA, sob a direção da professora Debora Santana, e encerrou a programação da Secult em alusão ao Julho das Pretas, movimento criado em 2013 para celebrar o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, comemorados em 25 de julho. A mobilização busca fortalecer o combate ao racismo, ao sexismo e a outras formas de discriminação, além de valorizar as contribuições históricas, culturais, sociais e políticas das mulheres negras.

Inspiração e legado

O nome da premiação homenageia Dandara dos Palmares, uma das principais referências da resistência negra no Brasil. Símbolo de coragem, liderança e luta por liberdade, Dandara inspira o reconhecimento às mulheres que, diariamente, contribuem para a preservação da cultura, da memória e da identidade de Vila de Abrantes.

A expectativa é que o Prêmio Dandaras de Abrantes passe a integrar o calendário oficial de eventos de Camaçari, consolidando-se como uma política permanente de valorização da memória, da representatividade e do protagonismo das mulheres negras, fortalecendo referências e reafirmando a riqueza da diversidade cultural do município.

Share this content: