Arteterapia produz benefícios para saúde mental e bem-estar – por Mariana Vilas Boas
A Arteterapia é uma abordagem terapêutica em que se utiliza recursos artísticos e criativos a fim de dar suporte para aqueles que precisam, promovendo cuidado com saúde mental e bem-estar. Para além da expressão verbal, a Arteterapia preza pelo movimento de firmar que a consciência está no corpo inteiro, não só na mente, sendo um convite ao autoconhecimento através de um caminho lúdico, criativo e prazeroso.
Dentre seus objetivos, destaco que ela pode ajudar o indivíduo a encontrar a sua verdade, possibilitando a exploração de emoções e pensamentos profundos que podem ser difíceis de articular verbalmente; utilizar as mãos e o corpo como facilitadores do processo terapêutico; despertar e estimular o pontecial criativo, reforçando a parte saudável da psique e promovendo o crescimento pessoal; possibilitar a elaboração dos conflitos íntimos através da configuração dos mesmos, dando forma e significado por meio da criação artística; entre outros.
Não se trata apenas de desenhar ou de usar outros materiais plásticos e uma interpretação a partir do que foi produzido. Na verdade, não interpretamos nada, porque interpretar daria margem para julgamento, e no contexto terapêutico o que existe é escuta ativa e observação.
Com as produções, podemos fazer uma análise em que paciente, arteterapeuta e obra criam um tripé terapêutico e, a partir daí, pode-se ter um olhar simbólico, no qual ampliamos e/ou “ficamos” com a imagem (quando não há necessidade de racionalizar o que foi feito, mas de sentir). Criando formas e corporificando símbolos, o indivíduo se recria, reconstruindo a sua relação consigo mesmo e com o mundo.
E o que seria esse olhar simbólico? É sobre não levar ao pé da letra aquilo que está sendo expressado, compreender que o que surge é uma representação, uma forma que a pessoa encontrou de dar forma a uma (ou várias) emoções, percepções e sentimentos que apenas com palavras ela não conseguiria alcançar.
Importante ressaltar que a Arteterapia tem diversas abordagens, e a que eu utilizo é a Junguiana, baseada na Psicologia Analítica de Carl Jung, em que usamos os recursos artísticos como uma ponte para o inconsciente, onde a análise dos símbolos produzidos visa alcançar o processo de individuação, ou seja, tornar-se quem se é. Por isso o paciente é visto em sua integridade, não apenas suas dores. O seu objetivo não está apenas em curar sintomas, mas “conduzir a personalidade em direção à totalidade”. (Jung, OC 9/1, paragrafo 524, p. 405)
Na Arteterapia, os símbolos são utilizados em todas as atividades, pois através do estímulo da prática da arte, conseguimos captar as mensagens passadas pelo inconsciente dos pacientes, sendo possível identificar complexos, por meio de mensagens simbólicas.
As análises não são feitas de maneiras aleatórias, é necessário técnica, vínculo e tempo. Indagamos juntos o que aquela forma poderia querer dizer, qual memória ela acessa, quais sentimentos e uma infinitude de formas de olhar para aquela obra. É preciso que o(a) terapeuta tenha muita atenção, sensibilidade e responsabilidade. Além de recursos como os arquétipos, imagens simbólicas, contos, mitos, na identificação e interpretação da arte, observar as manifestações e reações do autor da produção norteia sobre como aquilo se lhe apresenta.
Algo que considero de extrema importância na Arteterapia é também o fato da materialidade do recurso que se está trabalhando, quando falamos em arte plástica (lápis de cor, tinta guache, aquarela, argila etc). Como é que a pessoa reage ao contato com aquele material? É uma interação que causa estranheza, espanto ou prazer? O fato de estar “metendo a mão na massa” dentro desse contexto por si só já gera um efeito terapêutico, podendo reduzir estresse, ansiedade, diluir tristezas, se me permitem a liberdade poética.
Mas nem só de artes plásticas se constrói a clínica arteterapêutica. A escrita criativa, imagens, contos e mitos… na verdade, tudo pode se tornar instrumento canalizador para promover a expressão do que se passa no mundo interno da pessoa. O que caracteriza essa abordagem, portanto, é o uso da criatividade. Ela é o nosso fio condutor.
Pode parecer um pouco duvidoso de início compreender como é que produzir uma imagem, uma peça, pode ter efeitos na psique. Mas a verdade é que temos diversas maneiras de regulação emocional, expressão de nossos afetos, de nos organizar… e a criatividade é uma delas. Não é necessário você ter experiência prévia com materiais, nem saber usar determinada coisa, porque, como falei no início, não há uma avaliação. É um momento para que você se sinta confortável para se expressar da forma que conseguir.
A Arteterapia é uma modalidade terapêutica que só pode ser exercida por aqueles que fazem a especialização mediante cursos que seguem os parâmetros curriculares e critérios qualificatórios estabelecidos pela União Brasileira de Associações de Arteterapia (UBAAT). Vale ressaltar que ela também é reconhecida como uma das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS). Essa é uma abordagem democrática, e que funciona bem para todos os públicos! Que tal viver essa experiência?!
Texto por Mariana Vilas Boas – Arteterapeuta Junguiana, formada pelo Instituto Junguiano da Bahia (IJBA), graduanda em Artes Visuais, facilita oficinas e grupos arteterapêuticos e atende na modalidade online (mulheres e homens).
Share this content:


